crânio de HunterCorrendo atrás do prejuízo da semana inteira, eis a prévia de Hunter do último domingo. Desculpem-me pessoal, mas esta semana me engajei em outras coisas que tomaram todo o meu tempo. Na semana que vem este blog volta ao normal, e espero postar as outras prévias ainda hoje.

Abadia de Ashwood
Prévia de Hunter: The Vigil, 13/07/2008

Prove isto. Imagino que vá achar bem… surpreendente.

Pego sozinho no escuro, de costas para a parede, perseguido por coisas que mal compreende, coisas que tratam humanos como gado ou insetos ou animais reprodutores, perseguido por feiticeiros que te olham de cima a baixo como deuses baratos… Esta é a Vigília. É o que significa ser um caçador. Caçadores a perseguem porque acham que têm que fazê-lo, ou porque eles querem vingança por alguma perda inflingida a eles, ou porque eles são curiosos. Perguntem-nos. Eles lhe darão todo tipo de motivos. Mas dificilmente algum deles admitirá a única coisa que todos eles têm em comum, nem para si mesmos: é um dos maiores baratos que alguém poderia sentir.

Os membros da Abadia de Ashwood nunca fingiram estar fazendo isto por qualquer outro motivo além de diversão. Desde 1855 esta cabala de festeiros lambedores de talheres de prata tem se divertido matando coisas que ninguém jamais conseguira matar. E se divertindo com eles. Antes e depois da parte da matança.

A Abadia de Ashwood original, perto de Edinburgh, era o lar do Reverendo Doutor Marcus McDonald Ogilvy - que, a despeito de seu título ilustre e status na Comunhão Anglicana, era, sob qualquer critério da época, um homem muito perverso. Ele conduzia cortes depravadas em torno de um dos vários “Clubes do Inferno”: sociedades secretas de homens e mulheres bem apessoados e de mentalidade parecida que buscavam destruir os tabus de sua era. Para os padrões modernos, as drogas recreativas, o sexo casual e o sadomasoquismo em público eram bastante suaves. O Reverendo Ogilvy, um pensador à frente de seu tempo, parecia entender isto. Ele incitava seus seguidores para que quebrassem as regras de qualquer maneira que pudessem. Foi durante uma orgia a céu aberto, em uma noite de solstício de verão, que os ricaços presentes na Abadia de Ashwood desentenderam-se com uma alcatéia de lobisomens que se opunham a pessoas trepando em turnos ao lado de uma pedra a qual eles, os lobisomens, davam muito valor.

Muitos dos frequentadores da Abadia de Ashwood morreram naquela noite. O resto fugiu. Ainda assim, os sobreviventes foram capazes de evitar um escândalo: os cerca de doze nomes importantes que morreram não deixaram nenhuma prova escrita de seu paradeiro. Quando Ogilvy e uma dúzia de homens armados voltaram de dia para se livrar dos corpos, eles encontram um par de ossos sangrentos e roídos, além do que parecia ser fezes, exceto pela prodigiosa quantidade, deixada nos cantos do sítio, como se servissem de marca.

Um clérigo Vitoriano mais tradicional teria pensado que isto era um sinal de que, talvez, fosse a hora de desistir da busca pelo pecado. Ogilvy não era um clérigo tradicional. Ele viu ali uma oportunidade. Liderou seu círculo interno de volta às pedras três noites depois. E no topo daquele morro, à vista de todos os seus companheiros, ele se masturbou em cima da pedra central.

Então ele esperou, de pé, ao lado do criado que o limpou e o vestiu novamente enquanto carregava seu confiável rifle de caçar elefante com balas de prata sólida. Para seu desapontamento, ele nunca chegou a pendurar as cabeças dos lobisomens em sua parede; eles revertiam para a forma humana à medida que batiam as botas. Ainda assim, ele pegou o vírus. Ao longo da década seguinte, os seguidores de Ogilvy capturaram de tudo, desde uma deusa demoníaca de seis braços que pegaram na Índia e soltaram em Berkershire até um homem de mil anos de idade feito de pedaços de pessoas mortas.

E assim tudo seguiu. Após a morte rápida e prematura de Ogilvy nas garras de madeira de um goblin de três braços, a sociedade continuou. A Abadia foi preservada como seu legado, e se tornou uma clube privado de alta classe. Vários membros mudaram-se para o Novo Mundo ao final do século XIX e estabeleceram capelas por lá. Graças à natureza incestuosa da realeza européia (e sim, vários membros da família real Britânica faziam parte), capelas também foram implantadas ao redor da Europa. Elas até mesmo sobreviveram por mais tempo do que as estruturas sociais que as criaram, à medida que sociedades se desfaziam e mudavam ao longo daquele tumultuado século.

Nos dias de hoje, as capelas existem de forma mais ou menos independente. A maioria ainda paga uma taxa regular para a Abadia de Ashwood pelo uso do nome e de uma lista de membros ao redor do mundo.

Juntar-se à Abadia é um assunto singular. Alguns simplesmente são convidados após serem preparados por um membro durante algum tempo. Mais comumente, membros são coagidos a se juntar: um pretendente é convidado para um jantar organizado por membros; eles revelam que caçam monstros, descrevem a localização de uma vítima em perspectiva, e fazem um elaborado teatro envolvendo um sorteio. Há uma bolsa cheia de bolas de bilhar. Várias são vermelhas, uma é branca; aquele que tirar a bola branca tem o privilégio de liderar a caçada. E, surpresa!, quem é o felizardo? O novo rapaz. Tudo armado, é claro, e a partir do momento em que a caçada termina, o novo membro ou entrou de cabeça ou está morto.