(este post não tem absolutamente NADA a ver com Mundo das Trevas, mas eu precisava escrevê-lo em algum lugar. Calma, que a compensação vem na sequência - e na forma de prévias não-oficiais de quem já tem o livro de Hunter: the Vigil.)

Manomanomanomano Ne-gra!Quando era um rapazote de 19 anos, nos idos de 92, não conhecia absolutamente nada de RPG; meus hobbies eram quadrinhos (e da Marvel apenas) e música. MUITA música. Sei lá porque cargas d’água, meu sonho era ser nada mais, nada menos do que… crítico musical. Sério. Acho que instintivamente combinei o gosto por escrita e por música na única profissão que exigiria muito dos dois, ou algo do tipo. Lia a revista Bizz todo mês, ouvia rádio FM, e frequentava a festa Kitschnet, herdeira do famoso (para os mais velhos) Crespúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro (o equivalente carioca ao Madame Satã nos tempos áureos). Ouvia desde os famosos New Order e Smiths, por conta do rádio, até os obscuros The Fall, Joy Division e Jesus & Mary Chain, por conta da Bizz. Isso sem contar a última moda na Inglaterra: o indie-dance de Stone Roses, Happy Mondays e Inspiral Carpets.

Tudo se encaminhava para virar mais um moleque britpop-indie (do tipo que hoje ouviria coisas arrastadas como Coldplay ou Radiohead) quando chegou na cidade o projeto Cargo 92. Tratava-se de uma iniciativa do Ministério da Cultura francês, que reproduziu dentro de um navio cargueiro uma rua de Nantes - sim, uma rua inteira - e enfiou uma banda de rock e um grupo teatral lá, e mandou o navio circundar a América do Sul. A cada parada, a banda e o grupo desciam e se apresentavam, de graça, para quem quisesse ver. Por uma enorme coincidência, o navio aportou no Rio durante a Eco 92, uma conferência da ONU, e ambos montaram seu palco sob os Arcos da Lapa. Os cariocas mais velhos devem se lembrar do evento; foi quando o exército ocupou a cidade, que nunca esteve tão segura em décadas, e por conta disso até hoje o evento é mencionado quando se cogita o uso das Forças Armadas para conter a escalada da criminalidade no Rio.

Manomanomanomano Ne-gra!Esses cariocas mais velhos podem ter ido à Lapa naqueles dias e visto o grupo Royal de Luxe apresentar-se em um palco-livro, onde cada “página” era virada para prover o cenário de fundo de cada cena. Também devem se lembrar do momento em que três caminhões juntaram-se para formar um palco, onde subiram (oito? nove? dez?) malucos para tocar as canções mais adrenalínicas e absurdas que todos os presentes já ouviram na vida: de punk a música folclórica francesa, de ska a salsa, de rockabilly a reggae. E às vezes tudo junto. O importante era a farra.

O nome da banda era Mano Negra, e os mais novos talvez reconheçam o nome como a ex-banda do atual hippie-regueiro-latino Manu Chao.

Manomanomanomano Ne-gra!Ninguém estava preparado para aquele show. Nem eu, apesar de já ter um disco deles - o sugestivo Puta’s Fever, recém-lançado no país em vinilzão mesmo. O negócio é que não tinha “entendido a banda” - afinal, vinha de uma “dieta” de rock nacional (o básico - Titãs, Legião, Barão Vermelho etc.) e os artistas gringos citados anteriormente. Quando punha o tal disco pra tocar, ouvia no máximo umas quatro das 18 canções - geralmente as mais (punk) rock, que soavam mais “compreensíveis”. Mas “Rock n’ roll band” era uma favorita pessoal, e tinha que ir vê-los, nem que fosse para ouvir essa música apenas. Eles tocariam duas vezes, as duas em dias de semana, abrindo para Cidade Negra em um dia e Barão Vermelho no outro. Fui no primeiro, achando que já estava bom, e que não iria me deslocar de Niterói e perder a aula de inglês para ver o segundo.

Ahhh, tolinho.

O primeiro show foi tão acachapante que nem me lembro se eles tocaram “Rock n’ Roll Band”. Só sei que eu - e todo mundo na Lapa, dos punks aos mendigos, das patricinhas aos bêbados, dos velhos às crianças - pulou e dançou como nunca. Era incrível como uma banda de rock, e da França ainda por cima, conseguia agradar a todos os públicos daquela maneira. E, pra surpresa maior, lá pro meio do show, sobe no palco o Jello Biafra (Dead Kennedys) para cantar uma música do Clash (”I fought the law”) e outra de sua própria banda, “Too drunk to fuck” (que, confesso, nem conhecia na época, mas eu SABIA quem era o cara). Nota engraçada: tudo isso com direito a discurso anti-Bush - Bush PAI, bem entendido :D

Ahem. Me dêem um minuto, por favor. Rever isso no YouTube é emoção demais. As melhores coisas da vida são inesperadas, e vivemos por esses momentos inesquecíveis, não?

Manomanomanomano Ne-gra!No dia seguinte, acabei voltando, lógico. E, ao meu lado, apareceram todos os punks do Rio de Janeiro - a notícia da aparição do Jello Biafra se espalhou rápido, pelo visto. (Eu sei que o vídeo do YouTube linkado acima é do primeiro show, e não do segundo, pela ausência das trocentas bandeiras com o símbolo da anarquia na platéia. Havia tantas que mal dava pra ver o palco, se tu estivesse no centro do público). Desta vez fui preparado e comprei o disco novo deles, King of Bongo, das mãos do próprio guitarrista Roger Cageot (cujo nome nem sabia na época), e ainda consegui passar uma conversa e pegar um autógrafo do Jello Biafra. A injeção de adrenalina era tanta que nem cogitei ver o show do Barão Vermelho e ainda fui pra aula de inglês - suado e com um sorriso de orelha a orelha que chamou a atenção da turma toda.

Bons tempos.

Manomanomanomano Ne-gra!E porque a lembrança, tu pergunta? Bem, ultimamente ando desencavando uns CDs antigos para passar pra MP3. E nisso topo com In the Hell of Patchinko, o disco ao vivo do Mano Negra - que na época me custou uma fortuna, já que só saiu na Europa, mas valeu cada centavo. Era o disco que ouvia sempre que queria me lembrar do show. Daí, fucei mais ainda e encontrei todos os outros.

E não parei mais de ouvi-los novamente, desde a semana passada.

E me dei conta que se tratava de mais uma banda pré-Internet da qual não sabia quase nada. Se tanto, tinha lido uma matéria de uma página na Bizz, umas duas resenhas de disco, e só. Quando ainda morava no Rio, encontrei outras pessoas que estiveram naqueles shows e tinham virado músicos - entre eles, membros do Acabou la Tequila e dos Los Djangos - em grande parte por conta dos shows, e que me contaram alguma coisa sobre o fim escabroso da banda (que, à boca pequena, ocorreu por conta de um chifre, além do desgaste natural), mas foi só.

Manomanomanomano Ne-gra!Pesquisando na internet, em especial na página do Mano Negra na Wikipédia, descobri algo ainda mais espantoso: saiu em 2005 um DVD duplo com mais de seis horas de material, entre documentários, shows, faixas obscuras em áudio e afins, chamado Out of Time (que, por algum acaso, consta na Amazon como Audio CD).

E aí tem coisas que só São Paulo - em especial a Galeria do Rock - faz por você: fui direto na loja mais confiável para encontrar coisas obscuras que conheço, e surpresa!, eles tinham o DVD, importado da Argentina (e portanto mais em conta).

É engraçado descobrir, tanto tempo depois, o quanto você não sabia sobre uma banda. Os caras são ex-squatters - ou seja, viviam de invadir prédios abandonados em Paris para ter onde morar. A banda foi formada por membros de outras três; daí o tamanho (oficialmente, oito membros; extra-oficialmente, bem mais). Muitos deles vinham de uma cena underground de rockabilly, e acostumaram-se a tocar em trens de metrô e nas ruas. O lado latino-folclórico vem da espinha dorsal da banda ser formada por três parentes - dois irmãos e um primo - franco-espanhóis, entre eles o hoje famoso Manu Chao.

Manomanomanomano Ne-gra!O Mano Negra estourou primeiro com “Mala Vida”, uma espécie de bolero-rock-cafajeste lançado em single antes do primeiro disco, Patchanka (palavra que significa, no “dialeto” da própria banda, “farra” ou “putaria”). Foi o suficiente para arrebatarem muitos fãs na França, mas foi com o álbum seguinte, Puta’s Fever, que estouraram de vez na Europa - disso eu sabia, mas não a extensão: o disco chegou ao número 2 na Alemanha, 3 na Bélgica, 1 na Noruega e outras bizarrices do gênero.

Bizarro porquê, você pergunta? Ora, eles não eram uma banda de rock convencional, muito menos tipicamente européia. No Puta’s Fever já tínhamos salsa-rock-latino (”Patchanka”, “Patchuko Hop”), já tínhamos new wave à francesa (”La Rancon du Success” - que, incidentalmente, era a trilha de abertura do programa de Rita Lee na MTV, o TeveLeezão), já tínhamos até música tradicional árabe em arranjo, ahhhn, ska-punk? Ou simplesmente ROCK? (“Sidi h’ Bibi”). Que eles tenham conseguido capturar os corações e mentes europeus com tais canções chega a ser impensável hoje, em tempos de ódio a imigrantes e retorno de partidos neonazistas em algumas áreas.

Mas a coisa não parou por aí. O grande barato do DVD está no documentário do disco 1. Feito após a dissolução da banda, ele é bem completo, e mostra o que foi esse período de estouro muito bem. O mais impressionante é ver que a banda poderia, com o sucesso de Puta’s Fever, ter tocado em estádios para 20 mil pessoas e embolsando muita grana. Mas não, o que os doidos fizeram? Agendaram uma turnê pelo bairro “da luz vermelha” Pigalle, em Paris. Isso mesmo, vários shows menores em puteiros, casas de strip-tease, peep shows e similares. E ainda por cima, em uma dessas noites, continuaram o show na rua (assista o vídeo pelo menos até o meio para ver um pedaço dessa doideira).

O que me lembra de outro ponto pessoal. Na época, eu sabia da existência de um VHS ao vivo deles, de onde saíra o clipe de “Rock n’ roll band” (um dos poucos deles que passou na MTV). Achava que o era da turnê americana do Puta’s Fever, mas era só - nem mesmo o nome sabia. Quando comprei o DVD, estava cruzando os dedos para que tivesse sido incluído. E foi - no disco 2, e chama-se Tournée Generale. Foi de onde saíram quase todos os clipes ao vivo linkados neste post, e ainda por cima, é da turnê no Pigalle. Foi como receber dois presentes inesquecíveis de uma vez só.

Me dêem mais um minuto pra me recuperar, por favor. Só quem viu esse show sabe o quanto é BOM.

Nessa época, ainda iriam fazer a loucura de vir pra América do Sul, na cara e na coragem. Sim, simplesmente porque queriam fazê-lo - tocar para um público com o qual se identificavam, embora este nem os conhecesse. Notem que isso foi em 89-90, ou seja, antes do projeto Cargo. Passaram por Peru e Equador tocando em pequenas cidades e vilarejos onde os habitantes nunca tinham visto nem mesmo uma guitarra - e mesmo em Lima, foram a primeira banda de rock internacional a tocar lá (nem mesmo bandas de outros países da América do Sul o tinham feito). As imagens são pungentes - ginásios improvisados, concertos no meio da praça para um público acostumado a outras coisas…

Manomanomanomano Ne-gra!Depois de uma turnê americana e gravar King of Bongo, o disco mais “acessível” deles (em grande parte influenciado por quanto eles NÃO gostaram da América), rolou o projeto Cargo; depois, um mega-show em praça pública na França que quase foi vetado pelo prefeito (onde se esperava 15 mil pessoas e apareceram 20 mil, fora os 35 mil nas cercanias!); uma turnê pelos subúrbios de Paris, os mesmos onde, mais recentemente, aconteceriam as revoltas estudantis (a história dá voltas); mais um disco, Casa Babylon, que é quase o primeiro disco solo de Manu Chao e nem sabia (alguns membros já tinham saído); e uma turnê por trem pela Colômbia em plena era Pablo Escobar, quando a banda se separou de vez (pelo visto, o amor pela América Latina teve seu limite… :D )

Tudo isso está no documentário. O disco 1 ainda tem 35 faixas (isso mesmo, 35) ao vivo, retiradas de diversos shows ao redor do mundo. Destaque para as três gravadas em Munique, em que Manu Chao usa uma camisa do Brasil dos anos 70; para “Rock n’ roll band” em Nagasaki, o mesmo show onde gravaram o disco ao vivo (sempre me perguntei porque essa música não foi incluída no disco, e depois de ver o vídeo, entendo menos ainda :D ); e para a última faixa, supostamente em São Paulo, mas que é uma colagem de imagens com o áudio da faixa “Mano Negra” do disco ao vivo.

O disco 2 tem, além do Tournée Generale, um punhado de videoclips (infelizmente incompletos - falta alguns hits como “King King Five”, “Sidi h’ Bibi” e “King of Bongo”, o mais legal de todos… E de uma música que fãs de Manu Chao conhecem como “Bongo bong” em arranjo bem mais banal); vídeos bônus (entre eles, uma apresentação dos Les Casses Pieds, uma das três bandas que resultariam no Mano Negra, com Manu Chao fazendo participação especial); e a The Lost Tape, coleção de faixas de áudio perdidas, sobras de gravação e afins. Ah, também tem um outro documentário, de 89, mas esse é quase todo descartável - é um filme-cabeça com imagens de bastidores, praticamente nenhum diálogo, e áudio de canções do Puta’s Fever. Vale apenas por umas duas ou três músicas dos shows da primeira turnê latino-americana, que aparecem no primeiro documentário apenas em partes e aqui estão completas.

Ufa. Se você chegou até aqui, só posso concluir que aticei a sua curiosidade. Links no meio do texto não faltam. Assista e comprove - antes da globalização virar moda, nós tivemos um Clash dos anos 90, ainda mais multicultural e adrenalínico. Esse nicho ainda está vazio até hoje, e fico me perguntando se o mundo não precisa de outro Mano Negra, e rápido.

‘Cause I don’t like no disco
and I don’t like the house
’cause I’m born to ROCK
I’m born to POGO!
King of the bongo, king of the bongo BONG!