Narração


crânio de Vampire: the RequiemIdéia postada no fórum Shadownessence. A idéia parece tão boa, e recebeu tantos elogios no fórum, que acho que vale a pena postar aqui.

Basicamente, jogadores (no caso, de Vampiro, mas se aplica a qualquer outro jogo em que as personagens tenham um “combustível” para poderes, seja ele Vitae, Mana, Essência ou o que for) têm o hábito de consultar as fichas de suas personagens antes de gastar pontos de sangue ou Willpower/Força de Vontade, certo?

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Essa vem de um daqueles famosos relatos de “amigo do amigo do amigo que conhece o maquinista”. Se é exagerado ou não, pouco importa: a ficção é mais interessante e assustadora.

Segundo o relato, maquinistas de trem de subúrbio são proibidos de parar quando vêem alguém no meio dos trilhos, não importa a situação. Sim, é isso mesmo. A justificativa é que a tática de ficar no meio dos trilhos para forçar o maquinista a parar costumava ser muito usada por ladrões de carga, e por isso, a orientação “de cima” é não parar. O maquinista só pode buzinar para alertar as potenciais vítimas e, apenas depois de atropelar o(s) infeliz(es), frear.

E pior, sobra pro maquinista recolher os pedaços dos corpos atropelados. Os trens ainda têm uma caixinha frontal ideal para isso, e alguns veteranos sabem que uma “freiadinha” no momento do impacto aumenta as chances do corpo (e seus pedaços) cair na caixa - caso contrário, a tendência natural é o corpo se despedaçar para todos os lados.

E você acha que isso tudo é ocasional? O “amigo do amigo do amigo” conta ter quase abandonado o emprego três dias após sua efetivação como concursado. E sabe porquê? Estes três dias são dedicados ao acompanhamento de maquinistas veteranos em ação, para “pegar a manha” do ofício. E durante estes três dias, foram três atropelamentos - um deles, de dois policiais revistando dois bandidos com as mãos contra o muro da linha do trem…

Fico tentando imaginar quantas degenerações um cara desses desenvolveria, se fosse personagem de World of Darkness… No mínimo, alguma forma de Negação psicológica.

Eis uma semente de idéia, para quem quiser correr atrás de um novo mote para uma história, baseada em uma matéria do caderno Cotidiano da Folha de São Paulo de hoje: “Injeção de sangue vira mania do país e preocupa médicos“.

É a chamada auto-hemoterapia, ou a retirada de uma porção do próprio sangue para ser injetada em outro local do corpo do paciente. Segundo seus defensores, a prática serve como tratamento para “doenças infecciosas, alérgicas e auto-imunes, miomas, cistos e obstruções de vasos sanguíneos”. O que acontece? “O sangue, em contato com o músculo [na região afetada], provocaria uma reação no organismo que chega a quadruplicar a produção de células que melhoram o sistema imunológico”. Já o Conselho Federal de Medicina e as Sociedades Médicas dizem não haver estudos com evidências científicas sobre a prática, além dos possíveis efeitos colaterais ainda não conhecidos.

E aí vem a velha pergunta… Tirando o fato de envolver sangue e sangue lembrar vampiro, como usar isso? Bom, pelo menos uma idéia me veio à cabeça, nascida em resposta à primeira pergunta que sempre me faço ao ler qualquer matéria de jornal (”que interesse escuso poderia se beneficiar da publicação dessa notícia?“). Segundo a matéria, os primeiros registros da prática aconteceram em 1911. Ou seja, tempo mais que suficiente para que se produzissem estudos científicos sobre a auto-hemoterapia.

E porque não o foram?
Ora, parece óbvio. Estudos científicos precisam de financiamento. Geralmente, este financiamento ou vem diretamente da indústria farmacêutica, ou é guiado pelo que interessa a ela (mesmo os departamentos de pesquisa médica universitários/ governamentais acabam pesquisando apenas aquilo que se pode ganhar dinheiro com, de um jeito ou de outro).

E a auto-hemoterapia, que precisa apenas de sangue do próprio paciente e uma seringa hipodérmica, não apenas não rende dinheiro como tem potencial para aposentar com uma série de medicamentos, já que ela cobre doenças as mais diversas. Um dos praticantes diz ter se livrado da bronquite asmática - e, por consequência, do uso de inaladores…

Aí está sua conspiraçãozinha básica pra usar, nem que seja em uma história para mortais. Como envolver os vampiros? Aí eu deixo pra vocês, que eu tenho que trabalhar. Aliás, se alguém tiver uma boa idéia, mande para wodbrasil@wodbrasil.com. Com um bom desenvolvimento, pode até sair na futura seção de Tramas no site www.wodbrasil.com.

The Resurrectionists

Para quem ainda não soube, a White Wolf abriu uma sub-linha de produtos para World of Darkness: histórias semi-prontas em formato exclusivamente eletrônico (e-books) para quem quiser ter um ponto de partida e começar uma crônica. A sub-linha foi batizada de Storytelling Adventure System, ou SAS.

A diferença destas histórias para aquelas geralmente publicadas nos Apêndices de certos livros (como os livros básicos e de cenário/cidades) é que estas são classificadas de acordo com níveis de desafio. Sim, eu sei que cheira a aventuras de D&D com suas recomendações do tipo “para personagens de nível 7 a 9″, mas a classificação aqui é mais livre: as cenas, e a história como um todo, recebem um “nível de dificuldade” de 1 a 5 (como os Atributos) e de acordo com o foco em habilidades Mentais, Sociais e Físicas. Também inclui uma estimativa de XP inicial para os personagens que participarem delas (por enquanto, todas as histórias publicadas prevêem personagens iniciantes, com zero a 34 xp extras ganhos desde o momento de criação).

Para quem quiser dar uma olhada, o SAS tem seu próprio site, e um guia sobre o SAS para download gratuito.

Cheguei a dar uma olhada na aventura para Requiem, chamada The Resurrectionists. A resenha completa deve aparecer em algum momento quando conseguir lê-la com calma, mas as impressões que tive do SAS foram as seguintes:

- A história parece ser não apenas voltada para personagens iniciantes, mas para Narradores iniciantes: a idéia da classificação de cenas soa apenas como uma forma de referência simples, sob medida para aqueles jogadores vindos de D&D e outros sistemas - normalmente com dificuldades de compreender que, neste cenário, um bom conflito/antagonista não se mede pelo número de ‘bolinhas’ que ele tem e que, por isso, não há “tabela de encontros por nível” (agh).

- A premissa geral de The Resurrectionists não é das mais criativas (o círculo de personagens deve ‘resgatar’ um ancião misterioso do torpor), mas a organização do material, sim. Todas as cenas têm classificação própria, o que serve de bom augúrio para saber o que esperar quando rodar aquela cena, de acordo com as capacidades dos personagens dos jogadores.

- Os ‘cartões’ de resumo de cada cena são um belo recurso de organização para o Narrador, e o documento inclui versões em branco para serem preenchidas à vontade.

- As cenas não são apresentadas de uma maneira estritamente linear. Isto é, o Narrador pode usá-las na ordem apresentada, ou como situações isoladas que acontecem de acordo com as ações dos jogadores, ou até mesmo descartar e rearranjar algumas.

- Não falta, como usual no novo World of Darkness, discussões sobre como encaixar a premissa da história às necessidades da sua crônica.

Enfim, parece uma idéia interessante, especialmente se ajudar a ‘converter’ de vez jogadores vindos de outros sistemas. Vamos ver como se saem as histórias voltadas para personagens mais experientes, e crônicas em andamento há mais tempo (quando, normalmente, estas já estão estabelecidas há tempo suficiente para “gerar” acontecimentos e tramas quase sozinhas - o que torna mais difícil incorporar uma história pré-pronta qualquer).

Rome

Aproveitando a matéria de capa do caderno Ilustrada (Folha de S. Paulo) de hoje, uma dica para Narradores e jogadores interessados em se aventurar por outros períodos históricos:

Já está disponível em DVD a primeira temporada da série Roma, realizada pela HBO em parceria com a BBC de Londres, e neste fim de semana começa a exibição da segunda temporada no Brasil.

Embora o período histórico da série seja bastante conhecido e retratado no cinema até demais, esta série é simplesmente imperdível. Primeiro, a reconstituição histórica vai bem além das versões “sanitizadas” às quais nos acostumamos em outras produções: Roma aparece em todo seu esplendor caótico, com as ruas sujas e cheias de todo tipo de gente. Segundo, as características de um período pré-cristão são enfatizadas, com o erotismo desvairado à frente e os sacrifícios rituais dedicados aos deuses logo na sequência, sem contar os estranhos hábitos alimentares (comer enguias? camundongos?). Finalmente, a série, apesar de se preocupar com a fidelidade aos fatos mais importantes, consegue transformar o conhecido e bem-documentado em suspense, algo do qual poucas séries e filmes podem se orgulhar.

Tá, mas o que o Narrador/jogador de Requiem ou de Forsaken (só para citar as duas linhas que já publicaram, ou estão para publicar, algo sobre Roma) leva nessa? Ué, se trata de uma maneira agradável de se inteirar com as mais recentes descobertas sobre a “cara” de Roma no período da ascensão de Júlio César (primeira temporada). Além disso, vale descolar o DVD. Há uma feature em que o telespectador pode “substituir” as legendas por informações históricas adicionais, geralmente de acordo com o que estamos vendo em determinada cena.
Como se assistir a série apenas já não fosse um ótimo ponto de partida para entender como as relações políticas no mundo ocidental nasceram (e aplicá-las ao mundo dos vampiros na época da Camarilla…), ainda temos todo um vasto anedotário que pode dar “cor” à sua crônica, de uma maneira que seus jogadores nunca imaginaram.

Enfim, assistam. Já. Daí, quando sair A Requiem for Rome, ainda em 2007, é só mandar bala: a pesquisa sobre o cenário já foi feita ;)